Felizmente, digo, felizmente que não conhecia muito bem a realidade dos nossos hospitais. Fiquei uma vez internada uns dias, por um problemazito, mas foi na minha terra natal, do qual nada de mal tenho a apontar, fui sempre muito bem acompanhada. Infelizmente estes últimos dias, os hospitais têm sido a nossa casa e fomos confrontados com uma dura e crua realidade, a de que quem não pode pagar pela sua saúde, que é o bem mais precioso que temos, está sujeito a condições e tratamentos quase desumanos. Mas como digo, foi a nossa experiência, não posso generalizar. E não tenho problemas em referir nomes, porque as verdades têm que ser expostas.
Sábado, o meu namorado deu entrada de urgência no Amadora-Sintra por volta das 13h30, com muitas queixas num ombro, devido a uma grave queda. Pois se vos disser, que mesmo com fortíssimas dores e imensas queixas dele, só lhe fizeram os devidos exames deviam ser umas 20h00 e só lhe puseram algo a segurar o ombro (que estava completamente descaído e sem qualquer suporte!) deviam ser umas 23h00 e só foi internado á 1h30 da manhã, conseguem perceber a nossa aflição nesse dia. Para além disso, cada vez que pedia qualquer coisa para as dores era quase apedrejada pelo médico ortopedista, que era duma arrogância sem igual. Escolheu a profissão errada digamos.
Passado esse pesadelo, veio o suposto tratamento. Digo suposto, porque de facto, nunca chegou a acontecer nenhum. Domingo ainda não sabiamos o que ele tinha ao certo, disseram-nos muito por alto..sem grandes exatidões, ficámos quase a perceber o mesmo. Só quando viamos as dores que ele tinha é que percebiamos que deveria ser algo muito grave. Disseram-nos que teria que ser operado, a operação ficou marcada para 2ªfeira (urgência). Nesses dois dias ninguém o ajudou a limpar-se, ninguém o ajudava sequer a comer, visto que sem um braço e com dores agonizantes não conseguiria levantar-se para pegar num talher, nem ir ao wc. Quando tinha mais dores, chamava o enfermeiro, vinha uma auxiliar, que não o podia ajudar, esperava e acabava muitas vezes por nem aparecer. Eu percebo que tenham muita gente, mas não se esqueçam que eles existem nas salas! E estando a ser muito concisa, segunda-feira foi a gota de água. Não o alimentaram o dia inteiro, visto que ia para cirurgia, até que ao fim de contas lhe disseram que afinal já não iria ser operado nesse dia. Ficou sem comer, fraco com dores, á espera e afinal tinha sido só uma troca de alas. Começaram-nos a dizer que só operavam 2ºas e 4ºas mas que agora ia-se meter a greve dos médicos, então não tinham previsão para a operação e que se surgissem situações de mais urgência passariam à frente. Sim porque a situação dele para eles não era urgente, com um ombro deslocado e partido sujeito a criar infeções e destruir os tendões! (viémos a saber mais tarde que seria o que possivelmente teria acontecido, tal era a gravidade da situação). Até que percebemos que ele ali nunca mais iria ser ajudado. O próprio médico sugeriu que ele fosse para casa..sim leram bem..para casa! esperar até ser chamado para cirurgia. Não estamos a falar de algo que possa esperar, mas duma situação que precisa de ser tratada praticamente na hora! Foi a gota de água. Percebi então em primeira mão todas as queixas que tinha ouvido desse mesmo hospital. Situações incrédulas de negligência, que não queria aceitar que seria verdade. Conhecemos pessoas que estavam lá na mesma situação que nós, revoltadas, sem respostas. Uma mulher que ia ser operada pela 11º vez!!! Porque aquilo estava constantemente a infectar, tal seria o desleixo na operação. Um próprio amigo nosso, foi operado no mesmo hospital e já tem que recorrer a nova cirurgia devido a infeção. Eu não compreendo!!! Eu compreendo que a diferença entre o público e o privado, seja a de que no privado não têm nem metade das pessoas, nem metade dos problemas e falta de recursos por que atravessam todos os dias o público. Os médicos e enfermeiros do público são mal pagos, não têm condições de trabalho e é quase por amor á camisola, mas a falta de profissionalismo eu não compreendo! E isso pode acontecer tanto num como noutro sector, mas a nossa realidade foi a que nessa mesma 2ªfeira transferimo-lo para o Hospital Cuf Descobertas, ás 17h00 deu entrada, ás 19h00 já tinha todos os exames feitos e nós familiares estávamos esclarecidos sobre o que ele realmente tinha. Falaram connosco calmamente, explicaram tim tim por tim tim o que tinha e o que iriam fazer para o tratar. Terça-feira foi operado com sucesso por uma equipa fantástica. Esteve internado até ontem, sempre extremamente bem acompanhado, tratado e bem informado sobre todos os procedimentos. Paga-se é verdade, paga-se caro para se ter saúde e é aí que sei o bom que o dinheiro faz á nossa vida, apenas nesse aspecto, dá-nos segurança para termos garantias de que estamos bem. Mas sem isso, ele ainda estaria por tratar e possivelmente o tratamento não seria tão favorável à sua recuperação como será agora. E aí assusto-me por pensar, quem não pode, quem não pode sequer pedir emprestado para ter uma boa saúde, assusta-me pensar que são deixadas ao abandono, apenas porque um sistema não funciona de forma eficaz e esta é a realidade assustadora do nosso país.